quarta-feira, 23

Queria poder falar pra alguém: "você é bonito". Poder falar essas coisas agradáveis sem criar consequências, sequências de fatos, obrigações, valores, títulos, prejuízos, dor, desilusão. Nada. Poder falar "você é insuportável, você me mata" e causar o meu alívio na discórdia conjunta, haha. Do que que eu tô falando? Mas eu sinto falta dessas coisas, de verdade. Já devo ter me perdido tantas vezes que dá pra fazer uma biografia de alguém que não existe com tudo que eu deixei de falar. Com tudo que eu penso ter falado mas não falei. Porque eu geralmente falo o que não se deve, e o que é importante, o que eu ficaria feliz e grata em ter registrado já se perdeu nas conexões intermináveis, intediáveis, inviáveis de meu cérebro. Mas ele era tão bonito, de fato. Por que eu não falei pra ele? Não tinha nada a perder já que não o tinha, absolutamente. E ele ia ficar feliz, claro. E ele ia se lembrar de mim - assim como eu não esqueço aquela mãe tirando foto daquela filha naquela luz amarela, tão bonita como o menino -  como o menino que eu não falei que era tão bonito. Não esqueço. E não devo. Porque o que eu não externo, eu não esqueço. O arrependimento é a chave secreta para se guardar qualquer coisa que seja. E quer saber por que muitas vezes não me permito externar? Porque há o depois. Existe a pré-noção do pós-fato. Afinal, estaria desestabilizando o estável; me aproximaria dele, falaria, cortando o silêncio métrico do metrô, que ele era muito bonito e... E ai? Foi por isso que eu não disse. Porque eu espero sempre alguma coisa de algo. É lógico, há de concordar. Porém, falho. Tão falho que hoje estou aqui, ainda lembrando do que não fiz. E esquecendo do que já fiz. Da próxima vez, eu falo. Mentira, haha. Ah! Porque já externaram pra mim uma vez. Ah... foi tão lindo. O menino me deu uma flor. No meio da rua, ele resolveu me dar uma flor. Ele não pensou no depois, tanto que nada aconteceu. Eu não reagi, simplesmente. Quando se faz algo não se esperando nada, a reação não existe. Você não reage a um ato sem premedita-lo. E foi fielmente isso que aconteceu. Eu não reagi, nada aconteceu, hoje eu o levo pra sempre dentro dos memoráveis momentos de minha ordinária vida. De qualquer forma, você continua sendo muito bonito. Um dia você saberá - se já não o sabe.

2 comentários:

Julio P Vicente disse...

O arrependimento é a chave secreta para se guardar qualquer coisa que seja.

Em cheio.

Luiz Pedro disse...

Alguns sentimentos, palavras e emoções não devem ser tão planejados. Deu vontade, fala. Talvez você recebesse uma resposta ainda mais surpreendente. Talvez não... mas pouco importaria. Se permitir talvez seja um dos passos mais complicados, e libertadores, de andar.