segunda-feira, 30.

Não consigo falar o que sinto na lata, nunca consegui. Acabo sempre por usar o ironismo como fuga. Mas fuga do que? Do fatídico. Me amedontra, é forte demais pra mim. Raro são os que me compreendem de maneira devida. Inverto o sentido do que digo pra não me auto-chocar. Tenho medo de me frustrar. Auto-frustração. Crise existencial. É, combina com meu perfil. Não sou assim por medo do que as pessoas vão achar. Tanto é que as ataco, falsamente, mas ataco. "- Por favor, me perdoa. Não foi isso que quis dizer." E eu sei muito bem que é verdade. Por isso ninguém acredita em mim. Nem eu mesma. As pessoas desaprenderam a escutar umas as outras. Ultimamente, só tem me dado ouvidos. Mas a atenção que só o "escutar" tem... Ah, isso é passado. Ninguém mais tem tempo pra ouvir a papagaiada dos outros. E é ai que eu me ferro, que eu continuo aqui sozinha. Sempre escutando, ou pelo menos tentando, e só me ouvem. Pior que nem berrar ou gritar vai adiantar. Minha voz não é o problema.
Pois bem. Um dia vou ser auto-suficiente. As pessoas estão caminhando pra tal lugar e mesmo que eu não queria, vou precisar. Eu tô cansada do escuro, dos meus conflitos internos, da minha cabeça cheia demais, dos ruidos que ouço, dos meus medos, da falta de amor, de atenção. É pedir demais? Eu já ME pedi demais. Eu me esgotei e agora não tenho por onde fugir. Compartilhar perdeu o significado tão bonito que tinha. Nem deve existir mais essa palavra. E eu me vejo presa dentro de mim mesma, da minha garganta que não fala e dos meus ouvidos que não podem fazer nada além de escutar minha voz falha.

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