é, simplesmente não dá. não dá pra vida me proporcionar um momento de felicidade plena, sem interferências negativas. e a culpa é minha? deve ser. a vida em si não tem controle sobre nada. eu sou meus atos, os fatos são consequências deles. e a vida é o que mesmo? ah sim, os fatos. a realidade. a minha tão temida amiga. sim, amiga. tudo que me causa horror deve ser algo bom, deve ser algo sobre o qual eu não deveria me sentir dessa forma. talvez seja isso: o bom me assusta e por isso, inconscientemente, atraio essas negatividades pra minha vida. porque eu já disse e não tenho preguiça de repetir: a culpa deve ser minha. afinal, se não fosse pela minha insegurança, ridicularidade, babaquice, medo, ilusão, vontade... enfim, se não fosse por muitas coisas originadas em mim, nada disso estaria acontecendo. eu estaria bem, feliz e bem feliz - por que não? porque não, oras. você não nasceu pra isso, aceite. não aceito. como posso aceitar algo desse nível? não é de meu feitio. você que não sabe, julia. sei sim, alguma coisa devo saber. pior que não. não sei mesmo. ao soprar as velas do meu aniversário, na hora de fazer o desejo, tudo some da minha cabeça. o fogo do palito sempre me absorve e minha mente fica uma mistura de azul, amarelo e calor. e sabe aquele aperto na boca da barriga? não é bom sinal. e sabe a força pra respirar fundo? eu preciso de uma confirmação. de qualquer uma. tanto boa quanto ruim. tanto verdade quanto mentira. simplesmente preciso de algo pois o impalpável só me agrada de vez em quando. essa incerteza transforma minha vida desgostosa. mas e se não era pra ser? oras, quem decide isso? a vida? a vida não decide nada, já falei. destino então. que destino quê. a força está em você. você que pode raciocinar, quer mais que isso? quero. quero a ausência de tudo que tenho. quero o outro lado, o externo, o impalpável que não me amedronta, o bom que me assusta, o amor que eu não sei sentir, o choro que eu sei chorar, a música que não sei fazer, falar o que não devo, ouvir o que não quero. estou fadada ao insaciável. mas por que? porque não pode ser feliz uma única vez na vida? não é possível que sempre a lástima esteja reservada pra mim. ninguém pode ter isso como companhia. talvez a sua constante pergunta de "como eu aguento até hoje?" não seja tão em vão, julia. eu me torturo. acho que é isso também. a culpa é minha, só pode ser. eu sempre me tento em botar a culpa em alguém, no misticismo, mas não. não há desculpa que me absolva desse pecado. é só falar pra mim, na cara. seja direto, se exponha; eu me exponho mais ainda. é isso. é tão simples e é isso. me tira daqui, por favor. enfia de vez a faca no estômago ou tira a ponta fria de cima da minha pele. a angustia me consome e eu já não sou muito depois do resto que me tornei.
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