segunda-feira, 19

E lendo o livro que estou, Admirável Mundo Novo, comecei a discutir com minha mãe sobre um assunto que me incomoda, particulamente. Não pelo assunto em si, mas como ele é repercurtido na vida. Vamos a questão, enfim: a natureza do ser humano, o seu estado natural, puro. Que não existe mais, infelizmente. Tudo se vendeu, se tornou mecânimo, proposital, automático, industrial, pornográfico, sujo, promiscuo, duvidoso, ilegal, imoral, anoréxico, preconceitos, conceitos, tudo não é mais. Sabe, o verbe ser/estar, to be, être e avoir - que eu tive o prazer de aprender em outras línguas, podendo ser redundante sem nem perceber - não é tem mais a essência ingênua que tinha. Porque eu gosto da ingenuidade, mas não posso me dar ao luxo de lidar com ela. De sê-la. Senão o mundo me engole. Hoje em dia, sem a sagacidade não se é nada. Porque ninguém é mais natural, ninguém mais pensa como deveria pensar. Estamos todos moldados nessa bolha gigante, invisível e intransponível que o tempo, o passar do tempo, a história - que nós, sejamos sinceros - nos colocamos. Eu ainda me sinto meio perdida, frustrada, decepcionada com o mundo. Porque é tudo tão carnal, tão sem a noção não limitada das coisas, entende? Isso sufoca, faz mal. A gente precisa respirar, arejar o cérebro, as ideias... não sei, não sei. Continuar assim que não tá certo. É feio, baixo demais estar. Quem, em sã consciência, aceitaria tal pobreza? Hm, ai é que está. Quem é são hoje em dia? Ser, estar, são e salvo. Não, não dá mais. Não dá mais pra juntar todas essas palavras ao mesmo tempo. O que eu fiz aqui é um pecado, me perdoe. Ou me condene, já que assim sou/estou. Mas o que eu discuti, particulamente, com minha mãe foi a questão da sexualidade. O que é surreal - assim como toda a proposta do livro, admito -  mas que preciso concordar que o surreal poderia, sim, ser mais benéfico que o real. Eu não posso falar de coisas porque sou isso, não se deve agir de tal forma porque você seria vista como uma pessoa assim, e porra, dá um tempo! Como que tudo virou tão, tão... sei lá, tão insuportável? Não há uma válvula de escape óbvia, simples, clara, pura, nua. Não, nua não. Nua é promiscuidade. Não pode. Não dá. Não é. Não está. Não, negue, negue até a morte. Eu? Eu não. Não fui eu. Não sou eu. Oras. Que inferno. We're living in a hell and we don't know. Não. Nós sabemos e nos adaptamos a isso! Olha, hahaha. Nós, seres humanos, capazes de pensar, racionais, com mil neurônios, mil átomos, mil avanços, mil merdas inuteis que resultam nessa vida mediocre e regulada por uma sociedade idiota que me sufoca, me afoga. Me sinto numa correia, ou melhor, numa coleira. E ainda tem a coragem de dizer que a liberdade reina, hoje em dia. Reina, reina da forma mais triste possível: não sendo, não estando, não podendo, não usufruida, não permitida. Negada.

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